sexta-feira, julho 14, 2006

William Blake - O conciliador do céu e do inferno

Konstantin Gavros

A poesia talvez seja a manifestação estética que mais evidencia o quanto a arte é um dos melhores frutos da nossa libido, ou seja, de nossas pulsões sexuais.A poesia é a prova da disposição humana ? uma disposição, na maioria das vezes, inconsciente ? no sentido de superar os freios emocionais que nos são impostos desde a infância. Ela é uma eficiente resposta às amarras morais que revestem o homem com os andrajos da vergonha, do medo e da insegurança, impedindo-o de desenvolver-se sexualmente e condenando-o, dessa forma, a uma existência permeada de conflitos não resolvidos.Mas o inconsciente humano sempre encontrará uma forma de livrar-se das correntes impostas pela educação e pelos diversos outros condicionamentos que nos são impostos. Escondida em algum ponto do inconsciente, a energia sexual represada pelas convenções sociais acaba sempre por explodir ? na forma de arte ou, pior, na forma de um câncer ?, transformando a vitória da repressão em um frágil sucesso temporário. A lição de Freud não deve ser esquecida: o que foi reprimido não foi eliminado.Com razão, portanto, Michael Löwy e Robert Sayre[2], ao analisarem o romantismo, o definem como "a revolta da subjetividade e da afetividade reprimidas, canalizadas e deformadas".
Dentre os românticos, o mais polêmico deles, William Blake (1757 ? 1827)[iii], nos legou uma obra que não guarda apenas a característica de exaltar os valores da subjetividade, mas distila uma poderosa crítica ao capitalismo e à religião.Os estudiosos da obra de Blake certamente já detectaram as razões que o fizeram reorientar-se na direção da radicalidade, abandonando as temáticas quase pueris de Canções da inocência (1789) e abraçando o pensamento libertário de O casamento do céu e do inferno (1793) e de suas Canções da experiência (1794).Nestas últimas, encontramos a densa crítica à religião e aos moralismos apregoados por seus sacerdotes:

O Jardim do Amor

Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi algo jamais avistado:No centro havia uma Capela,
Onde eu brincava no relvado.

Tinha os portões fechados, e "Proibido"
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Que outrora dera tanta flor bonita,
E vi que estava cheio de sepulcros,
E muitas lápides em vez de flores;
E em negras vestes hediondas os Padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.

A morte e a dor nascem da proibição, da censura e do impedimento de vivermos nossos desejos. Quando o corpo é tolhido em nome do espírito, restam apenas as pedras frias que recobrem um jardim outrora marcado pela beleza. O homem, alienado em sua própria carne, recorda um outro tempo, cujas marcas de liberdade e pleno prazer deixaram-lhe lembranças indeléveis. Na visão do poeta, a verdadeira religião, capaz de religar o homem ao seu estado original, está proibida àqueles que são puros de coração (como o próprio poeta-criança, que brinca, em seu sonho, no gramado).
Em outro poema, a cidade emerge em uma cena de destruição e infelicidade:
Londres

Em cada rua escriturada em que ando,
Onde o Tâmisa escriturado passa,
Eu nos rostos que encontro vou notando
Os sinais da doença e da desgraça.

Ouço nos gritos que os adultos dão,
E nos gritos de medo do inocente,
Em cada voz, em cada interdição,
As algemas forjadas pela mente.

Se o Limpa-chaminés acaso grita,
Assusta a Igreja escura pelos anos;
Se o soldado suspira de desdita,
O sangue mancha dos muros palacianos.

Mas o que mais à meia-noite é ouvido
É a rameira a lançar praga fatal,
Que estanca o pranto do recém-nascido
E empesteia a mortalha conjugal.

Não há beleza em meio às ruas destruídas pela lógica do capital. Vivendo em plena Revolução Industrial, William Blake denuncia a corrosão da cidade, na natureza e dos homens, todos estigmatizados pela pobreza e pela doença, sugados até a desesperança pelo trabalho e por leis injustas.Em Jerusalém (um de seus últimos livros), ele chama para si a tarefa profética de iluminar as mentes obscurecidas e viciadas pelas mentiras que a religião, o mercado e o Estado apregoam:
"Trêmulo permaneço dia e noite;
meus amigos ficam espantados.
Mas perdoam o meu divagar,
pois não posso afastar-me da grande tarefa!
A tarefa de abrir os Mundos Eternos,
de abrir a Visão Imortal
Do Homem para os Mundos Interiores de seu Pensamento:
para a Eternidade
Em contínua expansão no Seio de Deus: para a Imaginação Humana."

Somente a imaginação humana, somente o homem capaz de olhar livremente para o seu próprio interior poderá ser verdadeiramente livre. É o caminho na direção dessa liberdade que Blake traça em O casamento do céu e do inferno, ao inverter as polaridades dos dogmas apregoados pela religião e ao instaurar, por meio de uma poesia libertária, uma nova ordem, na qual a vida, a sociedade e a história são reinauguradas.Anárquico, o poeta estabelece uma dialética com a qual objetiva quebrar a lógica maniqueísta da religião cristã:
"Não há progresso sem Contrários.
Atração e Repulsão,
Razão e Energia,
Amor e Ódio
são necessários à existência Humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal.
Bem é o passivo que obedece à Razão.
Mal, o ativo emanando Energia.
Bem é Céu.
Mal, Inferno."

O inferno torna-se, portanto, o verdadeiro céu. Para Blake, a "Energia é única vida, e provém do Corpo; e a Razão, o limite ou circunferência externa da Energia". O mal se transforma, assim, em bem, pois a "Energia é o Deleite Eterno".Não há mais tormentos. Carne e espírito estão refundidos em uma nova metafísica. O poeta condena os tímidos, os inseguros e os covardes que se recusam a enxergar a verdade:
"Quem refreia o desejo assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado;
e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar & governa o inapetente.
E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do desejo."
Na verdade, para Blake, Lúcifer não foi expulso do Paraíso, mas, na luta travada entre Razão e Energia, entre Bem e Mal, foi Deus o derrotado, "formando um céu com o que roubara do Abismo".Longe de ser um ateu, o poeta preconiza uma completa inversão de valores na relação do homem com a divindade. Ela não será mais castradora, mas incentivará o homem a descobrir suas potencialidades, sua energia adormecida ou refreada, sua verdade pessoal. A divindade, agora, anseia ardentemente que o homem mergulhe em seus sonhos e em suas vontades, a fim de redescobrir a centelha divina de que se esqueceu. Não só carne e espírito devem se reconciliar, mas o homem deve reencontrar, em sua carne, a luz do espírito; no sexo, a emanação perfeita da vontade divina; em seu próprio corpo, o fulgor divino que queima suas entranhas.Tudo o que a religião dividiu em forças antagônicas, a poesia, agora, refunde:
"O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.
Aquele que deseja e não age engendra a peste.
(...)
Prisões se constroem com pedras da Lei;
Bordéis, com tijolos da Religião.
(...)
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos,
o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas."

Inquieto e iconoclástico, William Blake quer resgatar a percepção original da realidade ? "Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito" ? e destituir nossa relação com o real das sucessivas camadas de mentiras que nos foram impingidas e que nos cegam. Esse precursor de Nietzsche diria que "tudo o que vive é sagrado". De fato, em sua supra-religião, a alegria, o prazer e todas as manifestações da sexualidade deixam de ser malditas, reconquistando para nós, animais humanos, a integridade que a absurda idéia de pecado um dia nos arrancou.
Konstantin Gavros é escritor. Assina, diariamente, o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade (http://sexoverdade.blogspot.com/).

[2] Revolta e melancolia (o romantismo na contramão da modernidade), Editora Vozes, RJ, 1995.
[3] Os trechos de William Blake utilizados neste texto foram retirados de: - Poesia e prosa selecionadas, Editora Nova Alexandria, SP, 1993. - O matrimônio do céu e do inferno, Editora Iluminuras, SP, 2001, 4ª edição, 2001.

Em Coração

Sem pestanejar
Sem hesitar
Só derramar, sentir e ver
O ausente livre revoar
De mim, do sim
Do se entregar
Assim do jeito claro de um velho sonho ator
Que encenou
Tenaz apenas percorrer
Pelo delírio
Pelo olhar.


Sem nem perceber
Sem nem dizer
Sem nem notar
A me perder em me encantar
E viver simplesmente a ver
O incidental que há em mim
Correndo a rir-se assim
A perceber o sol
Como antes nem mesmo notava
Apaixonado pela manhã.

Vai o invento do tempo
Estourando os espantos do corpo
E dos meus
Mil anos, momentos
Insanos de tanto dispor
Desta invencionice encantada de infância
Qual quem vê fada dos campos
E Dispõe a não só olhar
Mas sê-la em coração.

Palavra e Luar

Inverta a parede!
Corra desta cor!
Anuncie a sede de ser Deus!
Me fale algo assim
Nas artes, na mesa
Iluda-me na vida normal.

Porque assim a ver
Tua alva alma inteira
Percos rimas a não ver
Sutis, vis, tirocínios
Delicados gestos a ser
Além do enorme brilho
Do teu Ser.

É, ainda há céu
Imenso céu
E um sol que cisma hoje de encantar
Talvez só seja mesmo o ludibriar
Desta coisa vida que se faz ver
No imenso teu sorrir
De meu prazer.

Me conte como foram as semanas
As guerras, como anda a inflação
Me fale do imenso pecado humano
Me desencante
Fale no tom imperfeito
Desminta-me no ar
Mande-me calar.

Porque ver-te faz razão
Perder-se em estranhas mil linhas
Ver-se em asas
Estreladas.

Porque ver-te fez visão
Perceber brilhos, almas soltas
Ver pessoas coloridas.

E tudo isso me agrada
Faz-me ter prazer em ser palavra
E no entanto dá o medo
De surtar ao fim de cada inverno
E não ser primavera.

Como tudo isso faz-me novo
Como então explosão que ignoro
Deixando-me a ser magia plena
Escrevendo verso em linhos
Ternos novos
Ruas, horas.

Diga cá outra razão
Me desiluda, vã pessoa!!!
Pois é risco
Risco muda
E faz-me ir
Faz-me ir
Sem medo, só a voz plena
De apenas disparar
Coração nasceu na lenda
De ser palavra e luar.

quinta-feira, julho 13, 2006

A Justiça só é cega à discriminação

Recentemente em um nota de sua coluna o Jornalista Ancelmo Góis noticiou que a Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis do Rio negou, por unanimidade, recurso de Dimitri Dantas contra a Casa do Alemão, em S. J. de Meriti. Este recurso era relacionado à expulsão pela Casa do Alemão do Casal formado por Dimitri e seu companheiro pelo motivo de estarem beijando-se.

O interessante nesta notícia é não só a negação do recurso, não só a ausência de indignação do jornalista, mas o fato de ainda termos casos como esse perambulando pelas páginas de jornal e vidas humanas.

A existência de preconceito é um fato, existe o loteamento do amor e a patrulha do mesmo que rotula o que pode e o que não pode acontecer em ambientes públicos. Esta rotulação obedece a uma hipócrita decisão social que define o que é ou não "normal" a partir de critérios tão objetivos quando a direção do vento.

O mesmo mundo capitalista que anuncia as Paradas Gays, as festas, que investe em produtos gays, Filmes, etc, Que reconhece este público como consumidores, não se permite reconhecer o "Público Gay" como seres humanos com direitos ao amor, à liberdade de afeto, de manifestação.

Um Homossexual é interessantíssimo como animador de festas ou como consumidor, dado inclusive à média de poder aquisitivo comum a eles, porém isso não o permite ser um humano completo dado que não é "normal" sua orientação sexual, esta não vende para a massa que consome mais, por seu número, e que pode estar na Casa do Alemão e achar ruim seus filhos verem que o amor não é só o que rola nas novelas.


A limitação do amor a um cenário idílico e definido através do Heterossexualismo cai por terra em qualquer definição cientifica, qualquer linha de análise teórica desde os anos 50 pelo menos, porém a transformação da sociedade, que festeja as "Paradas Gays", não se permite ser tão rápida quanto o capital vende em suas revistas. Não se permite aceitar o que a ciência já coloca como factual.

O preconceito assim divide o que é normal e o que não é normal, colocando em guetos a pseudo-anormalidade, dividindo seres humanos em rótulos concebidos quase que totalmente a partir de definições religiosas já colocadas em cheque tanto pela ciência quanto pela filosofia.

Esta divisão causa automaticamente o problema da opressão, a manutenção da divisão entre classes e seres humanos, que se afastam em nome de definições de comportamento que não mais se relacionam com o dia a dia, com a realidade. É como se voltássemos a discutir se as mulheres e os negros teriam alma ou fossem gente. É como se em plena AVENIDA Rio Branco, em 2006, alguém usasse relógio de sol ou acendesse uma fogueira esfregando dois pedaços de pau.

A ausência do acompanhamento das transformações da realidade não é em si o maior problema, o maior problema é a estranha velocidade que permite que os mesmos seres humanos considerados excelentes consumidores ainda permaneçam sendo tratados como seres de segunda classe, inclusive por quem deveria zelar pela isonomia de tratamento legal. Ou seja, o mesmo estado e o mesmo sistema que entende que é normal e interessante um mercado formado por homens e mulheres sem filhos e com parceiros que também trabalham e que amam o mesmo sexo a que pertencem, não acham interessante que estes seres humanos manifestem sua liberdade afetiva e acham normal que estes tenham o direito de ir e vir, de consumir, de se divertir, delimitado a guetos, boates, hotéis e casas que os recebem, classificando todos os gays como idênticos, amantes das mesmas coisas, moradores dos mesmos bairros e como bichinhos engraçadinhos que gastam bem, mas não podem voar livres por aí, para não ofender o resto do mercado.

A Justiça, que é cega no mito, enxergou rapidamente, ou sentiu o cheiro, da busca pelo rompimento do preconceito silencioso que acha normal expulsar pessoas de um lugar pelo crime de um beijo. E como boa guardiã, não do aparato legal do estado, dos direitos individuais e coletivos e da liberdade humana, mas dos interesses conservadores de um mercado e de uma sociedade que é rápida e mortal em jogar os membros que não são soldados de antolhos na solidão do gueto.

A Justiça assim define que para ter direito, para poder viver como um livre ser humano e viver conforme a constituição manda, o cabra deve ser Homem, Branco e Heterossexual, caso não entre neste perfil é melhor procurar uma consultoria jurídica para ver qual é o gueto mais indicado para si, porque a justiça é Cega sim, mas à discriminação, nos demais aspectos é rápida, esperta e vê longe, principalmente para manter o status quo.

Malvados





sábado, julho 01, 2006

Cantos

Atrávés de um canto que morre
Há luar
Há também vozes que dizem não.

E estrelas
E estrelas
E entreatos
E descasos.

E
E
E
Tempo.

Razões
Descabelam-se
Palavras
Despedem livres sentidos de final
E livres
Há livres homens que são mais que uma invenção
De números e chibatas
Que descem em corpo são.

Há canções e presas
Há mesmo um texto original
Que fala da incerteza
De morrer em mãos do mal
E há o mal
Sempre há
A entrevar
Mesmo quando há
Um sol parcial sem violas.

Películas de terríveis
Sensações cerimoniais
Acontecem
Na canção de ir à frente
Nos povos, Pueblos e pobláciones
Que acordam entre atos
E entre sais
Cansando de rir da terra sangrenta de seus pés
Seguindo o chilro do riso de explodir
A Capital.

Canções de honra

Rabisque as noites lá no céu
Foices esquentam
Repare bem nos de chapéu
Eles não lembram.

Há sóis e cores demais
Não ria
Há avisos no portão de tarde
E naturais risos e bebidas
No corrimão da escada sul
E por isso mesmo tudo desafia aqui
Até a noite fria
De uma rua qualquer
Em mim e você
Solta sem cores
E maiores maravilhas.

Balbucie um hino agora
O jogo acabou
Mas tudo gira em si bemol
Sem horrores maiores
E a velha missão impossível
De seguir acreditando.

Melodias assim
Deitam sonhos em nós
E mesmo vendo Dom Sebastião em pés cansados
E ritmos de rapazes
De Livres pulos e andarilhos desejos
A gente segue sem maiores ventos
Seguindo o gesto correto
Que não comove os de chapéu.

E os de véu não riem
Pois somos ingênuos amadores
De armas em punho
Armas canetas
Armas feitas de jornal
Delírios de homens bombas
E notórios onze reis
De chute forte
E ventanias de querer
Ser mais que nós
Ser canções de honra.

Mato-me de viver e sonhar

Ando sem mim e vou morrer
Me faço ir
E sem assim
Nem mesmo ver
Vou me matar aqui e ali
Entre camas e dores de outro não
E sem ação
Eu vou assim
Como sem cor.

E se eu mesmo ir
Canso demais e faço-me ninguém
Porque o mundo inteiro faz cinema
E eu detesto invenção
Canso demais no turbilhão.

E entre aspas tão pequenas
Vacilos de bilhar e noites
Raspo agudas indiferenças
Da pele de meu coração
E sigo em frente
Tantando um beijo explosão.

Me faça rir
Pra ir e mais
Cair aqui
E por sabor
Deixar o Rio me cortar
Dos rumos da decoração
E eu tão só
Mato-me de viver e sonhar.

Prece

Faz durar o tempo in vitro
Faz da lua outra linha
Faz a rua de ventre mio
Corre atrás da alma.

Viva
No meuperceber
No meu próprio desquerer
Entre nuas outras luas
De aspas descoloridas.

E entre cores e luas cheias
Rabisco outros dias
Onde Enfants terríveis
Não me entristecem dias
E me faço desviver
Entre cores e morrer
Sò na lua desta lua
Que é rua de outro dia.

No samba de dia de jogo

Acordei na solidão das horas
Olhando alheios ventos por entre os dedos
Versos jamais andaram por entre os vales
De tarsos e metatarsos
Que antecedem as dores em letras.

Andei por entre tábuas de passar e o café não feito
As horas arrastando-se na máquina de moer carne
Da cidade de outrora festa
E sol se indo
Frio em ventos e curvas
E a falta de alguém no peito
Cambaleando a alma.

E assim seguindo entre cortes
Parafraseio o dia a dia
Sentindo outra manhã substituir a dor
E vendo a esperança no pandeiro de outrem
No samba de dia de jogo
Eu
rindo.

sábado, junho 17, 2006

Guerrilheiros da felicidade

Sambar sem fraque e bom tom
Roupa fina
Ou sapato de cor
Vivendo longe do horror
Dançante nas estréias
Na emoção
Da escola dos caminhantes descalços
Guerrilheiros da felicidade
Robustos em sonhos e atos
Cantamos as almas que ardem.

Nós nascidos em valsas
Perdidas entre medos chinfrins
E vendas de almas e pessoas
Se fazendo orgulhosos longes de um país
Que samba aqui no fraque de uma rua inteira nas mãos
Das pessoas que sentem o chão
Em que pisam
Sambas diaristas da sorte
De viver
Entendendo os pés
Na dança eterna de vidas sofridas
Cantores do canto que me é.

No nó da gargante desta tanta vida
Escrevo o laço
Que me é.

Vivendo no bambolear de um vil salário

Comida de sonho é pó de freio
Na lama da rua, asfalto
E comida anteontem faltava
Na rua
Na lama da vida.

E pó e chuva indo embora como quem dança e é fera
No rubor da dor que cobre e ninguém merece
E no sabor do palhaço calado
Na dor do pobre
Da pobre espécia
Por ser isto
Um ser inerme
No nome
E na morte do divino sangue
Que corre em veia santas
De dia a dia
E chuva de cruz.

Assim nascido
No corte
De todo o tempo
De toda a viga
De cada enorme prédio
De cada novo pó
De asfalto e cheiro e poeira.

E tudo pula, mole
Esmurra
A nascidura
A coisa morta do tempo sem mãos
E com as mãos penduradas no tempo de morte
Do eu
Do ser
Do viver
Sem povo
Pula-se
De sambas e cânceríginas soltas mãos
Das cordas
Vivendo no bambolear de um vil salário.

Ir além dos reis

Palafitas, Farrapos
Trapos ruins
Canudos sem meios
Populacho chinfrin
Externa decoração
Das casas onde moram reis
Escravos de mil sultões
Recados firmes à margem das leis.

Tanta terra
Imensos sertões
Dores de alma
Caminhos findos
O que é caminho então?

Hà lei
Há lei?
Ou existem só reis?

Palafitas de almas
Trapos d emim
Retalhos da lida que mata-me enfim
Catando recordações
Pedaços, papelões, meios
De comer talvez num dia
Morrer no outro
Ir além dos reis.

Toma a terra
Rebenta o peão
Rompe-se o dia
Pra outro dia nascer então
E viver vivo no coração.

Vem nóis

Vem um
Vem dois
Lá bate o tambor
E vem uns
Vem nóis.

Nascendo em mundos
Os sóis vão além de auroras
Viver se é necessidade
E feliz
Toco sem problemas
Boleros doidos
E na História de todo o tempo
Eu verso em vasos
O campo cheio
A bola solta.

A viver
Sou eu
Que nasce assim sem amarras
Por entre pernas e mels de lembrança
Passageira indo
Em fins sem esperança
Só as minhas mãos
Mexendo os dedos
Escrevendo cedo
Todo meu epitáfio.

Toca rápido o tambor do pranto
Que é o caminho chamando cedo
O pé e o fim
A vida enfim sendo a liberdade
Como se tudo, o tempo inteiro
Todo o ser
Sendo mais que espera
Sendo ação em cor
Sendo o espetáculo das Terras
Em mãos Maciças.

Eu vou voar indo novo nas auroras
Sendo estrela de enxada e carne
Sendo esteio de verdade nova.

Sair do mundo morto
Ser aurora
Saber o ver e o viver
Que faz feliz
Um final de sol e pranto
Coisa gostosa, de café e canto
De cerveja abraço e um gol amigo.

A viver
Adeus
Aos sem sol.

Entre Arcos e chamas de Rio

Canta espada
Canta
Em teu nome sangra
Aquela planta, o pranto
E os determinado incenso
Que cheira ao mês exato
Em que os rios dançam.

Canta cais
Canta invento, vento que em pó
Faz muro e mó
Rolarem como se o fio
Da alma, corresse aquela estrada
E morresse em folhas mortas
Do fumo queimado
Do sexo usado em planos e ganhos.

É o movimento do tempo
Quase sem tempo
Sem intento ou Rio
Que navega em mim
Por estas ruas sem velhas velas, corpos ou a mim mesmo
Aqui sozinho
Notando Arcos
E você
Cadê?
No Rio onde é meu pranto
O espanto dos mortos vivos
Na calçada
Abaixo do Menezes cortes.

Como ser sorriso
Neste fio de espada
Calada
Nos versos que nasciam
De dedos elásticos
E hoje uivam?

Canta Sorriso
Longe de você
Que em meu Rio nasce a ser
Um delírio
Que traz o sorriso cansado
Do sonho
A meus dedos
Agarrados na lâmina dos sabres
Dos versos
Que ardem
Entre Arcos e chamas
De Rio.

Entre as partes da mão que não esconde a risada

Invento detalhes, colossos
Recados de dormir
Cravados entre indústrias que misturam seu papel
Ao de nossas horas, nosso sonho
Nosso mel
E nós , embriagados
Dançamos na festa de um céu
Que já vai morrer.

Ouvi um dia Bussunda retrucar sem medo meu
Que não havia loucura a não ser negar o peito
Achei muito perfeita a invenção de murros longos
Depois de troncos ornados pra viver
E eu vou viver.

Entre harpas, aspas, cores
Luas doces, novas
Enviei minha alma à sorte
De outra alma viva
Construi casas de sorte
Nesta casa minha
Linda.

E nós
Poetas das quebradas
Entre copas, entre reis
De espada sempre na mão
Samangos, nossos irmãos
Pegando pesado contra nós e contra a vida
E nós driblando a vida
Chutamos de longe, com a torcida
No Gol de placa da vida.

E entre penas, cores
Dores, coisas nossas
Achamos a arte tão bom
Que a fazemos viva
E vida
Entre as partes da mão que não esconde a risada
E a vida
Viva.

sexta-feira, junho 16, 2006

Lapa

Sol bem lá fora
E a Chuva de outrora ameaça o domingo
E os olhos vão além
Vão ali na hora
Que faz de mim uma outra dança.

Eu entre aspas me faço rateio
De mesa de beber e rir
Sem cama
Pois a lua é dela
Deste sonho de vida
E de ser tal como quem faz meu
O sonho de ser igual
A um baile sem mentes
Sem sonhos e fins.

Só o beijo normal que nasce na lama
Do meu riso sem ciso
Só o natural de mim
Sem perdão ou calma
Que encena
O jeito que engrena o anormal
Desejo de ser assim
Talvez querendo viver demais.

Atos

Ato de guerra
Insanidade às duas
De outras matinas e bandos co-irmãos
Com fúria cega e corpos que desandam
Deitam-se ao solo
Entregam-se sem mães
Só o displicente distante querer do céu
Este inferno irreal sem flor, sem mel.

Ato de merda
Fome de morte e duras
Ganhos incertos
Metades de quinhão
Atos de chute na cara e "Meu irmão, qualé!"
Atos de aprto nos becos da invisão
Porradas que doem nos cornos do amoir
Que vê o sol fugindo ao léo
Nos olhos dos canos que correm o meu céu.

Chute de rua e solto soco
Tiro nas ventas de outro meu irmão
Tiro do tira e do mano das ruas
Tiro do Padre, do Deputado cão
Negação cega a tudo o que faz as luas
Mote de morte, de fim da ilusão
Um erguer da lei que fareja como cão mordedor
Que corte meu sangue, meu sonho
Minha real intenção
De querer mais que Deus
De querer viver, ser irmão.

Ato de ato
Que mata o morto, que chuta o nego
Que faz o medo ser nosso rosto
E mata o sonho sem grana
E sem mentira
Sem sentido e faz o incerto
Ser a falta de cor
Que faz do medo todo ator que faz são
Todo meu temer e toda minha irrazão.

sexta-feira, junho 02, 2006

Arianos

Qual canções
Sobre os ritmo do nada
Como assim
O impulso da própria existência
A sentir a vida inteira má parada
Indo no inevitável do momento.

São razões
E insensatez tanto pensada
Quanto
A loucura dos ingênuos
Explosão da ira nunca disfarçada
Qual um desafio ao próprio tempo.

São sentir
Toda a natureza aniamada
Corações
Rumos que rompem o tormento
Ao saber
Que toda vida é morte amada
Ela que só nos supera com a arma Tempo.

Vindo assim
Cada verso, vã palavra
Mente
Pois toda ação explica o vento
Sem assim
Prender-se em letras apagadas
Sobre
O próprio sentido do movimento.

domingo, maio 28, 2006

Me faço olhar

Antes destes ases
Eu perdi a conta
Fui normal
Me lancei nas costas
De outro mal
Me larguei nas horas
De perder a hora de amar.

Antes destes gases
Que matam horas além mar
Que me calam folhas
De jornal
Que me façam novas
Notas de hipócritas
Há mar.

E eu me calo tudo
Faço tudo obscuro
E me calo e arde sem parar
Este novo rumo, nulo
Quase muito
E quero é mais
É ser.

Quero ter teus ases
Preciso de teu olhar, do sal
Preciso saber se há o mal
Preciso agora
Talvez de tua porta
Ao mar.

Calo sem apostas
Falo poruqe gostas
E me faço olhar.

Nem Palavra e nem medo

Nem na boca tem mais medo
Nem palavra
Nem na hora de morrer eu largo a casa
Desta palavra sem medo
Ou levada
Que bem parece a irrazão que já me invade.


Cada hora que há medo
O medo é o mal
E coragem já me torna imortal
Já imoral
E nada disso me torna melhor, nem bem, nem mal.

E nem mal
Me calo pra não desdizer
Nenhum grito, sentido ou segredo
Nem um risco, nem tino, nem medo
Pois eu morro entre atos
entre casas
Ao sonhar e desonhar como agora
Ao notar a ilusão que hoje é trilha
Ao não termais medo de outras trilhas.

Nem palavra e nem medo me hoje cala.

Controverso

Não me esmurre
Meu sonho é controverso
Não me mude
Teu sonho é contra o verso
E há tantas horas
O tempo, a lama
O maço
O verso
São já tantas horas
E dias que se fazem o inverso
E a cada hora o mundo rima
E nós aqui dizemos ternos
Morrer é controverso.

Não há tempo
A massa sabe em tempo
Tantos são os calados
E nós contando momentos
Em que somos os inimigos
Perdidos na ilusão
De fornecer perigo
E todos lá fora só sorrindo
Mudando a cor dos muros velhos
Todos já somos velhos.

Falei direito
Escrevi direito
Tentei ser direito
Até parei de desdizer o que disse à vida inteira
Cansei de dar bobeira
Já sei
Vou correr contra o verso
Ou já ser controverso?
Tomei liberdade interno
De ver-me novo inverno.

Hoje chega

Eu quero a fronte serrada
O tapa
A corda
Que arrebenta o peito
No peito
No que deito
No coração na mão
Sem mão
Sem sonho
Sem consumo
Sem sumo
Idiota
Palhaço
Palhaço
Palhaço.


Palhaço dado no ventre
Na pedra, no intento perfeito
Na bandeira rasgada
Na multidão
Ignara
Ignorada
Sem vento.


Seco soco murro
Muro
Na boca
Na mente
Quem mente?
O sussuro ao canto da banca
Na banca dos mundos sentados
Ouvindo em discursos
Em pulsos
Em ruas e povos
Sem povo
Sem rua
Só carpetes e mesas
Só mesas
Expulsos
O povo
O moço
A rua
A bandeira
Só voto
Hoje chega.

Menino

Se fosse sabor
Saber
De ti
Enfim
Assim qualquer momento
Do tempo intento
Medo de servo ser
Medo se não ser
Perdido.

Por aí morrido
Em nítido tempo
Em tempo
Movimento
Sentindo a ti
Em vento
In
Vento.

Seria eu
Meu seu
Tempo
E sabendo amor em tempo de intento
Em fio
De esperanças
E danças mil
Eu assim
Nitidamente
Menino qualquer
Ia-me
Sem ir
Por aí
Contigo.

sábado, maio 27, 2006

Cale a boca

Cale a boca
E o desejo
E dê-me a arma
Cale a boca e o segredo da palavra
Cale a boca por favor de Deus
E mate-me a alma
E sem delírios mostre o sol que hoje arde.


Cale a boca e faça-se o mal
O bem de ser ninguém
De ser fatal por ser
Natural em sol.

No final
Todo desejo é viver
Sem segredo
Sem ritmo
Sem medo
Apenas por ser assim tão natural o medo
Como um canto sem tornado e sem casa
Como um grito que se expõe na noite fria
E eu dormindo sonhando com maravilhas.

Cale a boca.

Tormento

Se me esmurre na Minha palavra
É o vento
Que faz duro, o silêncio e o tempo.

Se me chute
Esculhambas o intento
Do teu chute
Ao perder a mim
No tempo.

Se iluda
E me faça eterno
O astro do vento é o monstro
E eterno meu desejo é certo.

Eu tô lá fora dominando
O astro e o verso
Derrubando internos
E reis de douros, ternos.


Cale e mude
Não me encha com ser moderno
Eu sou aqui dentro
Bem melhor que o passado
Do seu menor intento
E tô em tempo de amigo
Fazendo voltas de chefes ninhos
Mortos na autora sem saída
Dos dias sem infernos
Eu vivo bem mais terno.

Não tem dinheiro na carteira
E nem tempo pra colher modernos
Fogos destinados
Ao gueto
Do verso.

Eu já não sei
E nem retruco mesmo
Outro truco
Jogo que faz-se esmo
E nem sei
Se interno morro ou venço
Nem titubeio
A pensar-me morto ou verso
Não calo-me
Tormento.

terça-feira, maio 23, 2006

Pra todo meu povo e tempo

Podem juntos
Irmãos e o tempo
Dançarem como negros
Em tempos e inventos
De santos dias de outro tom
E de canção de hermano tempo.

Pode o sol ser a magia
De uma poesia solta
Como se fosse o invento da porta
A saida do desejo
E como se toda a noite fosse noite de um tempo
Onde meus pés e mãos são negros.

E nas Itálias da cabeça
Uruguays de meu desejo
Lua solta em alta Lapa
Lapa solte em meu negro
Ato de ser alta vida
De ser vida e intento
Como se samba fosse
Apenas um meu desejo
A soltura das amarras
Pra todo meu povo e tempo.

Asas do se Animar

Falar de ti
Pode ser
Para ti
Sorrindo o som de um bom tom
De rir.

Porque o azul de tudo é o azul
Da magia
Ou o dia
Sendo somente nós.

E porque a sós
O nome é doce
Na boca atroz
E somente a ti
Somente pra ti
O tom do bom é o som que faz
Nascer de ti
Um sorriso úmido
Um zumzum
De dias
E marias
Que não sabem ser nós.

E um
Nosso dia
Nossa magia
Sendo assim como ia
O Dia se não fosse a prece
De nossos corações
A dançar como um coração
A se descontrariar a magia e o corpo
A se lançar
Nas asas
Do se animar.

Os sonhos de gente a cantar

Se há sol sem cor
Não nomeu lugar
Se há sol sem dor
Não no meu sonhar.

Nasci
Por aí a voar
Nasci
Sem nem notar luar e por aí pude ver
Criança virar gente a queimar
E por aí pude ver
Adulto não crente inté rezar.

Se fugiu a cor
Olhe bem no olhar
Se fugir a cor olhe para o mar.

Nasci
E cresci a escutar
O rir e também o chorar
De muita gente que crê que palavra vida
É pra sonhar
De muita gente que crê na palavra vida
Pra voar.

Eu olhei para o chão e aprendi do chão
Que nasce se plantar
A imensidão do sonho e das flores
Do peito de quem lutar.

E nasci da cor
Da mão do irmão do mar
A rir
Com seu barco a deslizar
A vir
Cantando o tom do luar
Entre o sonho e o ser
os sonhos de gente a cantar.

domingo, maio 21, 2006

Partido do Cachaça

Ontem eu fui na festa do cachaça
Tava lindo
Tinha riponga cansado
Tinha dondoca sorrindo
Tinha paulista calado
E mineiro sacudindo.

Porque somente no clube
Da cachaça bamba canta
Comunista desembesta
Neo liberal não se espanta
Com todo um povo em festa
Na cadência de um samba.

Ontem eu fui na festa do cachaça
Tava lindo
Tinha riponga cansado
Tinha dondoca sorrindo
Tinha paulista calado
E mineiro sacudindo.


Porque somente no clube
Da Cachaça se encanta
Quem já perdeu alguns sonhos
Quem sonha em esperança
Quem se limita na vida de trabalho e não dança.


Ontem eu fui na festa do cachaça
Tava lindo
Tinha riponga cansado
Tinha dondoca sorrindo
Tinha paulista calado
E mineiro sacudindo.

Porque somente no Clube
Da Cachaça gente tanta
Se descobre amante
Se redescobre e canta
Pra que amigos do dia
E antigos façam dança.

Um Beijo de amor e Sal

Ana graça
Nana jardim
Flores avulsas de mim
Retumbantes vãs palavras
Não descrevem nada enfim.

Não há mais nenhum ar pra se jogar.

Entre pedaços de outro mal
Vozes frias
Lua normal
E a imensa maravilha
De viver sempre o bom dia
De viver
Pelo teu sal.

Luar é coisa que brilha no olhar.

Estrelas parecem velhas
Qual a terra
As trilhas e as feras.

Há meninas que dançam veras
À Vera
E há a linda
Donzela
Que destina sonho e sal
Verso vão
Verso banal
Que procura melodia
Pra roubar da moça a trilha
De um beijo de amor e sal.

Sol Mininim

Sol mininim
Petisco de graça
Coisiquinha à toa
Ages de mim estrela que baila
Saravá pessoa.

Parto de um sol sozinho
Que faz poeta perder a razão
Vento que corre bons dias
E vira mundo
Em qualquer vã canção
E de rápido riso
Faz os segredos perderam a vida
E desvela o sorriso em dias
De vã palavra que agora cria
Um novo sol de ondas
E parta de várias
Letras e doses
De uma melodia.

Sol que de si
rebrilha patacas
Faz nascer pessoa
Parto de sins
Estrela e meca que hoje brilha à toa.

Sol de riso de mansinho
Autoridade de imensidão
Rasgo de mil noivas, linhas
De trens que abarcam maravilhas, sons
Como ser um artista de palcos nobres e ruas vazias
És assim como um bom dia
De uma fada
Que faz ventanias
Parecerem sóis que dançam
Numa noite fria.

segunda-feira, maio 01, 2006

Claudia

Faz-se sol
Há na palavra um jardim
Feito de monstros
E novas árias de uma cor
E um fim.

Ages em nus
Cores repletas de um céu
Que cortam celas
E grades que desatam nova cruz.

Palavras sorriem
Quase como quem desafia mar
Atos fazem mesa
Cama e, quiçá, clareira.

Tantos nomes
Tantos chãos
Homens, desígnios vãos
DE coisas cantareiras
Prontas pra, sim ou não, tornar-nos irrazão
Feitas de tanta certeza
De perde-se à própria mão
Guinado-se no canto
De uma sereia viva
A própria magia.

Como ao sol
A palavra arde sem jardins
Ao ver-se em fogo
E em fogo inadiar-se a ser sim.

Redescobrindo o olhar

Entre detalhes de cor
Inventos, ventos ao mar
Dezlizes vivem entre os dedos e o teclar
As linhas de verso meu
Que cabe em si entre a flor
E a lâmina do cortar.

Rebuscando coisas Super Man
Tendo na telha apenas
O sentido inexato e tênue
Das coisas vivas que perdem-se entre risos.

E a snuvens de outro dia
Quase sempre de um dia sem par
Feitas em duplas como se todo o par
Fosse apenas a maravilha
Que limpa e desafia a tinta.

Que pintava a cena como matéria
Matéria pronta de qualquer matéria
Finda
Que em tempo, em tempo
Sugere o caminho da mão
O deslize dos dedos a caminhar a mão.

Na razão inversa do tempo
No tempo que descria o inferno
A vesgo queimar a alma
Como se Sol.


Inevitável calor
Surge no vento do mar
E tudo ri enquanto pinta-se o pintar
Dá-se na telha que Deus
Faz tudo ser o pintor
A desvendar-se no mar.

E isso sugere à língua
A perfeita noção de vida
Reabrindo-se entre risos
E novas mil melodias
Que armam-se a ser-me sol.

Desafiando-se cor
E refazendo-se cor
Das palavras tirando o sal
Deste delírio de escrever como pintar
Rimando o caminho
Eu, palavra feita de dor
E sentimentos de ar.

E escrevo como um fio
Depressa
Sem calma e nem sentido
Apenas o peixe, o arco
O desamparo dos que deixam-se ternos
Dos que morrem-se eternos
E sem fim vão-se tensos
Internados em verso
Como um segundo ao certo
Perdido entre imersos
Como tolos sem direito
Dançando-se nos lamentos
E sem tempo e sem verso
Fazem-se apenas cor
No pincel do julgamento.

Escrever,pintar cor
Desenhar mar e luar
Lírico fim de não saber a quem amar
E nem mesmo a quem Deus
Situa sucesso ou dor
Redescobrindo o olhar.

Partes de Sina

Saber colher
Saber colar
viver marinas
Ser invenção
De coração e eternidade.

Sorrio em mar
Sorrio em cor
Sorrio em mesas
Só Rio em paz
Vendo sabor
De realidades.

Vindo pelo improviso
De realimentar esquinas
Driblando alvos e sinas.

Palavra flor
Palavra amor
Novas belezas
Águas de ar
Águas de mar
E vida à vera.

Desviar dor
Desviar mortas cantilenas
Fazer será
Virar irá
Pelas cidades.

Vindo e indo em cio
Entre detalhes e tintas
Criando partes de sina.

sábado, abril 22, 2006

Casa da Claudia

Fazer sorriso aqui
É só riso rir
Ser isso e riso
É só isso rir
Entre aspas ser um
Ser múltiplo um
Fazer de si o imenso um.

Porque o imenso de um é o todo
É o fim
Imenso fim de ser ir em si
E rir
Porque só de rir
Se faz um sorrir.

E o um é da voz
O imerso em vós
Sabendo disso
Sabedor ria
Na coisa de rir de si
E ir em si
Por ser
Mas que um
Pois um sorria.

Universo

Facas, obuzes
Doces
Milênios
Palavra Fé
Agem mil reversos e intensos
Sonhos de alma e o que vier
Entre alças de infernos
E madeira de cruz
Solta entre o desejo
E a visão que distorce
O tremelique da canção
Como algo tão inteiro
Que se arma em calor.

Facas
Obuzes
Doces
São internas todas formas
Que deslizam em si mesmas
Como alguma cor nova
que faça delírio meu
Ser universo.

Como um verso

Surgem
Quase que como música
Diversas ilusões
E tons de bola
Que tocam pro passe perfeito
E misturam sons de palavras
Sem nenhum compromisso com o sentido
Ou como escracho de cada verso.

Surgem
Como simplesmente nada
Versos metrificados erroneamente
E gritos
Ritmados e perdidos
Pelos encontros de almas e socos ingleses
Destas ruas selvagens
Que me parecem belas.

Talvez Blake esteja certo
Ou os Tigres da Ira desembainhem palavras
Mais certas que o osso duro da conveniência
E desta hipocrisia deleitada
Pelos nobres de coração morto.

Talvez o vento encanado
Das praias e ruas da cidade minha
Maravilhosa ou não
Em seus delírios de grandeza perdida
Seja mais que simples parcimônia com os mortos andantes
Talvez ele seja um sopro de algo que jamais ocorreu
A libertação dos medos e máscaras que nos acorrentam
Por aí.

Surge
Como dávida
A impressão do eterno nas pedras
E o olhar dos animais que fogem
Surge
Como veia
A eterna e maldita vontade de fugir
Das regras que criam novas doenças
E novos escravismos.

Surge como a si mesmo
Como um verso.

São Domingos

Eu quero um samba qualquer
Replicado nas miudezas
De dias Domingueiros
E respirando São Domingos
Sem chuva
Participo do tom tribom
Dos surdos.

E maracatus deslizam
Entre toques de maresia
E a entressafra de beijos
Que descuidam-se em si mesmos
E aparecem entre o casario
A praça e uma vontade de explodir
Como festa Espanhola
Em Rios de Janeiro.

Por isso o samba que eu quero
Têm de saborear as instâncias
Cegas
Dos tambores e guitarras
Das Jam Sessions
Que num chuvisco de barca
Numa oração premeditada
Por um passista triste
Atrapalham-me a visão
E destinam meus versos
A singulares universos.

quarta-feira, março 29, 2006

Milharal de pensamentos

As falas dos homens são apenas vértices de almas impróprias perambulando por aí. Como sinos.
Será verdade que o futuro é um encanto despropositado do homem com o fantasioso medo da morte?
Há porventura algum sentido em esconder-se do tempo, como se a vida parada deixasse algo mais que a imensa dor da inexistência?
Ou seremos todos apenas pérfidos meninos a brincarmos com uma solidão ininterrupta, enquanto observamos o jogo das estrelas com ódios na mão?
Aposto eu, imundo poeta de beira de calçada, que cada centelha que explode agora, nada mais é que uma resposta inevitável a todas estas perguntas. Porque a centelha de cada olhar e notadamente dos olhares febris, é a vida em si mesma, imortal, eterna, mesmo que o corpo acabe.

Aniversário

Um dia, uma semana, tempo passa
Tempo passa
Segundos e minutos no relógio, nas descidas e subidas
Das quebradas
De um Rap norteante
De um verso em troço velho
De um terço desta vida
E que vida
Que se faz
Nas Racionais
Milirampas de caminhos
E destroços de nós mesmos.

Nós que vamos
E se vamos
Pelos jeitos entre muros
E castelos
Cartas velhas, maltrapilhas
De um mundo
Qualquer que não me vê
E não me crê
Indio velho preto e branco beduníno
Que não move outra palha
Senão mundos.

terça-feira, março 28, 2006

Denise

Sonho de corpo em perigo e risco
Ferventes águas de olhos
E seios postos em sortidas cores
Que causam em vida e alma
O sangue fervente que explode em paixões
E delírios.


Asas que confundem milagres
E respeitos que rompem limites
Corpo em prontidão sucessiva
De desejo em fúria
Explodindo pedaços de mim
Como em febre
E luz incandescente.

Fuja
Embala-me em teu corpo
E permite o meu enlouquecimento
O rompimento da sanidade
A fuga destes mundos que separam minha boca
Do teu corpo
E meu desejo destas mãos
Que fazem do jogo
A própria razão do existir.

Desejos

Desejos não se movem, entre as aspas de palavras
Passeiam por corpos
Que deslizam
Calmamente
Enquanto os olhos devoram
Pelas retinas do dia a dia
A beleza incandescente
Da mulher de olhos negros
E sorriso de espanto.

Desejos incandescem
Olhos e corpo
Fazendo surgir
Como infame explosão
A necessidade de ver e rever
No jogo diário
De despir
O corpo
A alma
A fome.

sexta-feira, março 24, 2006

Minutos

Sabe-se lá qual o termo
Das paragens de vida solta?
Quando o rumo torce tintas
As felicidades ganham exageros
E talvez por minutos
Os infinitos reclamem
Sem sucesso.

Anima

Arde em delírios o signo
A arte, o beijo
A incessante parábola medo
De saber-se imerso em calor.

Arde em subúrbios de meu corpo alvo
Da alma em mim
Alvo raso
De tremores e ânsias
De tudo se dar.

Arde pelo feminino que encanta
Na dor, no prazer
Neste ócio que é a própria vida
A ser bem mais
A ser ungüento benigno
Veneno que mata
Odiosa lida
Ou divino gosto supremo de ser e amar.

Pode ser menina
Ou anjo
Musa ferina
Imensa mulher
Todas tão saborosas, supremas
Infantes que trazem seu brilho ao mar.

E a mim louco insano poeta
Na chama da lama
Do ato de ser
Me entrego à anima que finda
Por fazer-me fé.

sexta-feira, março 17, 2006

Palavra, Qualquer, Palavra

Raspa palavra em meu
Sonho livre de anuncia
rAlgo feito doido céu
Algo perdido ao luar
Regrado por mal e eu
Calado a se retirar
Entre delírios e barcaças
Alto mar que dá de graça
Talvez nova vã palavra
Que eu pegue e torne concha
Que espalhe em minha vida todo o som de algo mais.

Cala-te palavra
E em meu mundo faça-se calor!
Que resgate da canção
Talvez sonho, talvez cor
Faça-se milhões de Eus
Faça-se minha ilusão
Entre aspas, entre ócios
Entre sonhos
Que me falam mais tamanho
Encrustrado em novo plano
Algo ao menos não humano
E perfeito na visão.

Palavra se afastePor Deus!
Por qualquer coisa que há!
Pare de dizer-me meus
Jeitos de perambular!
Faça as malasDiga Adeus
Vamos por aí costurar
Mil caminhos
Mais mil almas
Sem retratos , sem caladas
Almas, tralhas, falhas, asas
Algo que jamais me valha
Vamos ter em nós a calma
De escrever
De revelar.

quarta-feira, março 08, 2006

8 de Março

Olga Benário da Silva
Cora Coral linda de Curvas
De Elis e Santos de Ancas
Bethânicamente mente sana in corpore
Santas Bruxas ou bruxas de luas
E Festas de Jonas que Queimam fogueiras e Lees
Ritas e Duncans, Pagus
Íris
Rosas
Meninas, mulheres, dos olhos.

segunda-feira, março 06, 2006

Catarina

Calor de sol
Reinventado e renovado
Tom de risos
Pra ser luar
Entre arestas e detalhes que são antes
Todo o antes
De meu sangue.


A ferver seu
Entre pedaços recriados de aurora
E o medo meu
Se ver milhares cambaleantes
Almas dossonantes
Entre o corpo
Como Nova
Estrela, Carne, Hora
E meu eu.

Poetizar tua alma
É talvez saber
Versejar teu beijo seja talvez ser
E ficar contigo
Entre o agora e a lei
Do sol que hoje brilha
Pleno na minha trilha
Que dança em mim como o Rio
Que canta em mim quando rio
No coração
Nesta canção
Este sorriso de Brilho.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Poemas Curtos

Repente de um rap salvador

Sapecando vagabundo sonhos fartos
Me desembalo
No repleto sol de flor
Vagabundando piruetas de alforria
Debulho dias
Pelos cantos de outra cor
Que desembanha outras artes
Outros intentos
Que vasculham pelos ventos
Um destino amador
E eu maluco
Buscando o sorridente
Procuro no Samba repente
De um rap salvador.

O batuque do meu ser

Queria saber qual ninguém
A rua certa que atroz
Me mostra o sorriso que vem
Calçar meu peito de outra voz
Que badale o sabor
De um amor bem querer
E saudosa em mim
Remartele enfim
O batuque do meu ser.

Intervalo da Volta

Meu coração se mata
Antes de dar-se em despedida
Vulgariza-se em Sambas
Ao olhar a pretendida sorte
Do Sorriso alheio
Que não pertence-me.

Amar como quem solta-se em velas
Como quem vê no rosto
Daquela que meio anjo assalta-me o peito
A entrega de um amor desmesurado
Pleno do sofrimento da ausência
De sucesso
Platônico resultado da solidão.

E eu, bambo mambembe,
Clown sem Shakespeare,
Anacrônico no veloz mundo sem cheiros
E tintas,
Deixo-me assaltar pela melancolia
Ao ver no sorriso àquela que encanta
E mata
Por deixar a solidão e a carência
Alcançar-me
Sem o belo e romântico beijo da espera
Sem o libertar de Cavaleiro de Branco
Deste donzela petencente a leões fugidios.

Hoje brilho no escuro do encanto
Porém o que sou
Além de desalentado sonhador
Que moído em máquinas monetárias
Tenta iludir-se
Na vã onda dos que morrem diariamente?

Na ruiva fronte
Talvez deite o dom de amar-me
Porém como saber
Se talvez o encanto nada mais seja
Do que a busca daquilo que novo
É apenas o intervalo da Volta
Ao príncipe amado
Que deita ao lado
Excluindo-me.