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quinta-feira, novembro 01, 2012

Brincando de olhar

Era de fatos e vidas
Era de simples não ver
Era de ser coração
Talvez de mundos querer.

Havia invernos e astros
Haviam heróis e cidades
Haviam canções e passados
Crescer era além de vontade.

De vida o sorriso derreteu-se ácido
Virou de sonho um sentir
De quem se desejava guerreiro
A velha ardente dona do mar tornou um que ama relógios
Um doido de querer voar
Por entre linhas e códigos
Por gente boa de rir
E pela forma de fé que em fé torna-se mundo a rugir.

Nos hojes das letras e lamas diárias
O riso, a fome o pasto, o muro
A medalha é viver o lugar
Dos passos que deu no chão traz o andar
E sabendo viver alma aberta deixa-se futuro mar.

E por ai eu vou deslindar
Ser mais breve, ser menos guardar
E vou derrubar minhas cercas, infernos e ao mar
E vou deslizar por entre as pernas do mundo
Menos eu
E rumo ao mar ser moleque brincando de olhar.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Amigo Velho

Amigo velho é que nem sal grosso
Serve pra temperar lagarto e espantar Tinhoso
Entra de carrinho mais cruel nos tigres de papel
Desdobra o drible e faz golaço com o sangue tímido
Amigo velho é que nem bandido
Que nem malandro que dá chapéu no Zico.

Amigo mesmo vai de Campo Grande ao centro do mais profundo da cidade
E expande
Faz surgir a mágoa, a carga, o rancor
Refaz-se desamor
Retumba abraço e sorriso
E na de quem não se reconhece liso
Rouba o que tiver pra comer
Abre o que se tem pra beber
Compra dois quilos pra saber-se intimo.

quinta-feira, julho 12, 2012

Como quem não quer nada

Escrevo meus passos com dedos e almas
Almas armadas de pedras de caminhos muitos, cruzes expostas
Pernas negras espalhadas
Canções e reparos
Abraços e violas
Cervejas e ruas noturnas.

Escrevo por não saber voar
Escrevo pela natureza de existir como quem devora
Escrevo por fim por insistir
Assim como quem não quer nada.

domingo, junho 10, 2012

Vidas feitas de espelho

Ver o mar do céu
Ver o mar do nariz
Escutar o som de saber ser feliz
Rasgos, tretas, incendiárias canções pagãs
Cada treta me espanta pela imensidão.

Ver é ter um dom
Ser é dar-se pro dom
Ser é respeitar o entorno do dom
O certo, o perto, o verme, a estrela e o luar
São verdades, razões feitas de enxergar.

E o risco é imenso, é adiante, é incerto, é grilo, é treta, é fé
Risco é linha
E linha é pé pela noite.

Ter é ser, comer, respirar, ser feliz
Ver é mergulhar, é saber ser raiz
Se esteio é a paz, a faca da força vã
A força viva do fogo é só coração.

Ver é ser e ter a dor de ser canção
Ver é ser de pobre vida, paixão
Andar pelos caminhos desta espada é mais que prosseguir
É notar, é saber, sorver, luzir.

E o frio é deslize do mundo na pele que arrepia de ser imensidão
Vida é este andar
Vida é ter esta fome.

Tanta cor no  planeta, tanto ardor e frio
Tanta forma de gente ser meu pavio
E a pele das tretas reflete-se no sabor
Destas letras que espantam de tanto amor.

E ao Rio caminho, me torno inventário de vidas, de versos, canções
Assim vivo de vidas feitas de espelho.

terça-feira, junho 05, 2012

Multidão

É quase lá
Uma ação, um descampado
Um motor desalmado, uma vinha, um espasmo
Um pedaço de passo
Um abraço, um gosto amigo
E é quase que o mundo e o riso
Parecem cidade e me dão sentido armado.

É quase lá
Uma sela, um jeito meu
Uma forma de garrote
Uma forma de sossego
Um passo bem dado
Um gesto, um riso, uma fala
Uma surdez embriagada
Uma multidão que passa parecendo eu mesmo.

sexta-feira, maio 25, 2012

Nas chuvas que nos fazem bem

Há verdades, dias, luz, olhar e ser feliz
Há detalhes, riscos, ódios, amores que nascem no feliz
E há o ir, há o morrer
E tudo isso é fazedor de ser
E há o crer, o destronar o Deus do querer saber voar.

Há o mar e o sentido de mergulhar em plena luz
E no mar saber-se vão ao ver-se onda e ir pra nunca mais
E há o viver-se bem
E ir assim andar ao sol, à lua
Em ti a ver o rir, o dançar das ruas
E as ruas vem.

Assim por ver há duros dias, duros nunca mais
E somos tanto mar
Que o mar parece olhar e faz o grito virar sussurrar
E há o rir, o ir, o ver
Que tudo isso é assim um ser
E ser é tanto ver-se mar
quanto nascer em pleno bom luar.

E ao viver o bem, o olhar
Brilhar em ti, em mim, no ver
E ver também é rir, é ir, chorar, voar
Morrer nas chuvas que nos fazem bem.



sábado, abril 14, 2012

Pequeno mapa do poeta

Não sei amar de menos, nem metade, nem desamar.

Também não sei sair do quadrado do acordo, do dizer, do formar, do definir e isso é meu, construí-me assim, dói às vezes porque acabo sem saber dançar, mas desdói quando mostro que sei correr, pular, voar, construir muros, pontes e poemas e teses.

Gosto muito de um verso que fiz recentemente, é um dos poucos pelos quais tenho xodó: Meu peito é Ícaro, é poesia. Meu olho é Galileu.

Esse verso diz muito de mim é quase um verso interno de Fado Tropical amaciado. É um "Meu coração tem um sereno jeito e as minhas mãos o golpe duro e presto, De tal maneira que, depois de feito, Desencontrado, eu mesmo me contesto.". 

Construo amores, amizades, carreiras, sonhos  e nem sempre consigo-os concretizar tanto pela ansiedade, mas muito porque Ícaro derrete-se ao sol da realidade, mas Galileu percebe e salva a alma ao pensar no que fazer e decidir que "No entanto ela se move".

Galileu mostra a Ícaro que o voo queima, mas que pode um dia não queimar.

Não sei amar sem estar vivo, pleno, sapiente, com o drama do inconsciente, do ciume. Não sei amar sem me amar e sem entender que quando a dor é maior que o prazer é melhor ir embora.

Prefiro ir embora a transformar um amor em uma punição dupla, em  um monte de tijolos de uma casa que construí sem perguntar pro morador se ele quer.

Sou rápido demais, tenso demais, duro demais, frágil demais, flácido, moleque, tonto, cego sensível, insensível, humano enfim.

Não me aturo às vezes, imagino os demais que não tem o bônus de ver um sol de manhã e sabê-lo verso.

Me dói demais ir embora, sempre.  Talvez por isso seja sozinho na maior parte das vezes, porque não sei ir embora deixando-me ali indo pra outro lado.

Sinto a cor e a dor dos irmãos e amores que tive, tenho e terei.

Por mim? Ou amaria a mesma mulher que primeiro amei ou amaria todas ao mesmo tempo.

Espero um tigre para amar, mas o trato como se fosse um cão de estimação.

E nisso aprendo-me mais e a cada dia me torno mais aquele que espera o grande amor que me reconheça  ao tomar café comigo e ver uma manhã com meus olhos.

Uma vitória? Desfazer equívocos, trazer de volta quem se foi. Uma grande Vitória? Acordar poema.

Nesses dias eu doí, chorei, acordei, ri, reaprendi mais um pouco de mim, vi um mundo abrir, ganhei um livro, dei aula, poemei, pensei futebol, chorei amor, aprendi amigo, transei transa, comi biscoito e ouvi Caetano.

Nesses dias Ri Malês, Falei Escravos, Aprendi Classe Operária, Queijos e Vermes.

Não sei quem sou hoje, não sou quem fui.

Gosto disso, de ir brincando, de ir assim, como quem cresce.

Gosto de ser Malê, Lisboa, Porto, Rio, Madureira, de chorar por saudade, de chorar de ternura, de amar com fome, de querer de novo de ir atrás de tentar que todos riam, que todos fiquem felizes.

Gosto de quem gosto e digo que gosto. Gosto de morder quem não gosto e de tratar com pelúcia a quem gosto.

Eu gosto de estar ali.

Obrigado, muito.


domingo, abril 08, 2012

Vendo o outro ser imenso.

Amizade me dói um pouco peito pela necessidade. A percepção da necessidade do amigo se dá menos pelo próximo e mais pelo diverso, pelo contraponto, pela construção. De mim basto eu, de tu nada basta.

Não sei se desengano o egoismo ao amar, acho que não, autoritarizo como sempre, mas me acabo ao ver o outro indo, longe de mim e me percebo mutante para que caiba sempre mais de todos em mim, para que seja eu uma espécie de tudo. 

Como um menino que se fecha e morde ao pegar seus brinquedos e recua ao ver que sem amigos a vida descolore. Como diria meu pai: "As marionetes se rebelaram?".

Em todo meu amor é isso, é assim, sou este que renega o avanço, o encontro e a descoberta e se ressabia de ser, até ver que sem rir, ir e voar nada se alcança.

E ai corujo, me esbaldo no saber o outro, mesmo um saber pequeno, mal feito, mal perguntado, mal sabido, intuído e chorado, doído.

Talvez não seja único, nem sequer o maior amador, mas amo e corujo o outro, me sinto assim como entregue na obrigação de ver naquele outro o maior, e não porque não o seja, mas porque é tão grande aquele sol que emociona por saber nele uma forma de vida inteira, que sem o elogio, o beijo, o abraço e a admiração os demais cegos que povoam a terra estariam perdidos.

Corujo o outro pois o preciso rindo, o preciso feliz e o preciso imenso. É um egoismo, é meu, é assim, não sei como não o ser.

Amo assim, ela, as irmãs, as amigas, os pequenos, o irmão, os amigos, os cães.

Amo como quem se perde no prazer de ver o outro ser imenso.

sexta-feira, abril 06, 2012

É isso

Hoje me dano
Me dano pois em mim há os desertos dos infernos que criei
Eu só queria brincar de bola, lamber goiabas e correr sem limites
E chorei nunca ter sido aquilo que abraçaria o coração primeiro
Chorei e choro por me inventar todo dia novo e velho ainda ser infante
E ver que  me queriam herói quando era escriba.

Hoje me dano porque preferi o vôo das garças, o andar ao sol e o rir abraçando cães
E querer lidar com pequenos que ouçam a voz do sorriso e brinquem com minha história
Hoje me dano por me sentir pequeno, tolo, tosco, surdo
em meio a uma música que não escolhi dançar
Pleno de saberes e vontades, de fomes e versos
Pleno do querer ver mar, andar amor na Ouvidor
Flanar alegre e sendo um riso que nunca fui
Eu, Casmurro, em um campo de Capitus
Elas ali com olhos de uma ressaca criada por mim e livres em um mundo que não vi por míope.

Hoje apanho de novo do menino mais forte porque lhe disse Heróis gregos e sua força não os conhecia
Hoje de novo abro caminho entre os fortes com os punhos que não quis usar e me perco no sabor do sangue
No gosto do Sangue que queria danar em mim
Hoje me sangro no sangue alheio
E me escondo.

Hoje olho e espero um pai que não vai chegar
Hoje olho o amor que tenho e não sei se virá
Hoje o futuro me lembra um passado
A urna do cotidiano guarda pandoras impossíveis
Hoje preciso ser fraco, calar, gritar, dançar um tango
Ouvir rumbas, rir de besta
Cantar dores antigas
Ironizar minha finitude
Morrer um pouco
Olhar meu Rio de outrora numa rua da Lapa
Hoje preciso de um sentido infinito que morra em segundos
Preciso de muito e de ti
Hoje preciso de irmãos e de ninguém
Hoje sou eu e só
E é isso.

quinta-feira, março 29, 2012

No cofre de almas brilhantes

Um algoz no mar do mundo
E eu aqui indo afora.

A rir defronte o inimigo
Em um silêncio gritando
Fervido em breves espasmos
De um parco sentido.

A ir como se o longe rira
Parado, em risco, na busca
Prevendo a voz calada
Ante o silêncio que escuta.

Numa forma de ver mundo no aqui
Perco as horas.

A vir de um mundo espada
De um corte feito de murros
Colorindo o passo na água
De um simples sussurro.

A abrir o onde na própria pele
Nas horas de sermos novos
Amar é saber-me imberbe
Na flor que a alma envolve.

Nas palavras perco os mundos de mim
Acho as horas.

Nasci fruto de um Rio
Nasci flecha e arco
Crescer dói por ser bonito
Viver é ser pleno parto.

E ali tudo é perigo
Aqui melhor é todo o antes
Me lanço por ver-me rico
No cofre de almas brilhantes.