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terça-feira, agosto 28, 2012

Só mar

A minha cruz é meio sede
É meio céu, é meio mar
É meio mel, é cor da pele
É quase ódio de amar.

A minha cruz é meio verde
É falha, é fel, é adornar
A forma azul da bela pele
Das muitas novas vidas más.

O riso finda a mão
A mágica
É não ser céu, nem fel
Só mar.

Como um erro sincero

As formas do que sei de mim
Mostram-se milhões de grades
E entre dedos, ânsias, fazem-me novidade
Calada nos âmbitos nus das artes de um vago vento
Presa no temor da indecência do apavoramento.

As luas que trago em mim
São também insignificâncias
Como assinaturas esquecidas
Ruas sem infância
Perdidas onde não sei
Feitas com algum esmero
De uma forma venal
Como um erro sincero.

quinta-feira, maio 03, 2012

Anseio

Anseio.


Anseio como quem morre, como quem fareja a fome, como quem precisa incendiar-se.

Anseio.

Anseio e busco e me perco, e mordo, e fujo,e  choro, e rio, e me embebedo.


Anseio.

Preciso, urge o peito, urge a fome de ver, sentir, cheirar, lamber, morrer.

E o grito, o urro quando vê, o grito, o medo quando lê, o gesto, a ida sem, a ida a sós, e mais nada.

E chora-se.

E morde-se, e vai-se pelas ruas, e olha o outro,pega o outor, toca o outro.

E morre-se, e vive-se.

Anseio.

sexta-feira, abril 06, 2012

Sou vento e fim?

Minhas horas, meu palco, meu mundo
Meu parco e profundo medo de mim
Minhas horas, meus passos
Minha hóstia, meus brados
O meu bom e meu ruim.

Escama de peixe, de rumo
Espada que cuido
Voz de cetim
Minha nódoa, meus claros sorrisos e gratos
Sonhos bons
Medos ruins.

Agora é o véu que me oculta a tempestade
Eu que sou do dia, dos mundos, das tardes
Me torno céu
E traduzo novas artes
Me rasgo na divina chuva que me arde.

Agora é fel pra quem é de fel e arde
Como quem traz dos pântanos mortos de mim
E me faço brado
Me torno rescaldo
Ajoelho e calo
Sou canção e sou meu fim
Espalho os passos, entrego-me aos raios
E abraço o som do sol, o fogo, o sim.



Me torno céu, largo o fel e dou-me tarde
Abraço a canção de quem torna-me búfalo d'artes
Me torno céu e me embarco nas saudades
Voo como o vento e me sou das tardes.

Minha vida, meus passos, minhas asas meus calos
Nova mãe? Sou vento e fim?




É isso

Hoje me dano
Me dano pois em mim há os desertos dos infernos que criei
Eu só queria brincar de bola, lamber goiabas e correr sem limites
E chorei nunca ter sido aquilo que abraçaria o coração primeiro
Chorei e choro por me inventar todo dia novo e velho ainda ser infante
E ver que  me queriam herói quando era escriba.

Hoje me dano porque preferi o vôo das garças, o andar ao sol e o rir abraçando cães
E querer lidar com pequenos que ouçam a voz do sorriso e brinquem com minha história
Hoje me dano por me sentir pequeno, tolo, tosco, surdo
em meio a uma música que não escolhi dançar
Pleno de saberes e vontades, de fomes e versos
Pleno do querer ver mar, andar amor na Ouvidor
Flanar alegre e sendo um riso que nunca fui
Eu, Casmurro, em um campo de Capitus
Elas ali com olhos de uma ressaca criada por mim e livres em um mundo que não vi por míope.

Hoje apanho de novo do menino mais forte porque lhe disse Heróis gregos e sua força não os conhecia
Hoje de novo abro caminho entre os fortes com os punhos que não quis usar e me perco no sabor do sangue
No gosto do Sangue que queria danar em mim
Hoje me sangro no sangue alheio
E me escondo.

Hoje olho e espero um pai que não vai chegar
Hoje olho o amor que tenho e não sei se virá
Hoje o futuro me lembra um passado
A urna do cotidiano guarda pandoras impossíveis
Hoje preciso ser fraco, calar, gritar, dançar um tango
Ouvir rumbas, rir de besta
Cantar dores antigas
Ironizar minha finitude
Morrer um pouco
Olhar meu Rio de outrora numa rua da Lapa
Hoje preciso de um sentido infinito que morra em segundos
Preciso de muito e de ti
Hoje preciso de irmãos e de ninguém
Hoje sou eu e só
E é isso.

segunda-feira, março 19, 2012

Preferia o fim

Dói que só
É rio turvando
E além do corpo o outro eu
Além
O riso, o desbotar que vem.

Dói e é só
É vida, é designo, é fim
É outro jeito de ir
É um sim.

A aspereza é um sentido
E o fel da maldita voz que arde em rancor
É assim um ineficiente papel
Impotente
Sem cor.

Dói e só
É indo assim caminho enfim
Pro certo som que é dó
De mim
Preferia o fim.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Entrega

O meu amor corta pedras com a língua
Queima
Foge e fere
Estranha
Rosna
Brinca
Ri
Pateticamente ri.

São olhos, pernas, sonhos, muros, guerras, gritos
Unhas rasgando feridas e febres, e  ondas, e mares
E novo.

O meu amor é mundos, fundos, dramas, choros, ranger de dentes
Pasta de dente trocada na farmácia
Cama quebrada
Gritos de guerra
Arquibancada
Poesia e música
Vertentes de fé que mobilizam mundos.

O meu amor é saudade e perseverança
É um amor de correr gira, rodar a baiana
O meu amor não esquece, nem desiste
Só se entrega.